Ciência,
Por: 29 de junho de 2014

O homem que viu o tempo parar

O que começou como uma simples dor de cabeça logo se tornou algo muito mais estranho. Simon Baker entrou no banheiro achando que uma ducha quente ajudaria a aliviar sua dor. “Eu olhei para o chuveiro e foi como se as gotas d’água tivessem parado no ar”, diz. “Elas entraram em foco muito rápido, em questão de segundos”.

Enquanto as gotas são enxergadas normalmente como um ‘borrado’ devido ao movimento, Baker pôde vê-las paradas na sua frente, com seu formato alterado pelo ar que cortavam.

O efeito, ele se lembra, era muito similar à forma como as balas eram percebidas por Neo no filme Matrix.

No dia seguinte, Baker se dirigiu ao hospital, onde descobriu ter sofrido um aneurismo. A experiência no banho logo foi encoberta por essa ameaça mais eminente à sua saúde mas, em uma consulta de acompanhamento, ele mencionou o acontecimento a seu neurologista, Fred Ovsiew, da Universidade Northwestern de Chicago, que se surpreendeu com o caso.

Osview acabou escrevendo um artigo sobre Baker no jornal NeuroScience.

O anonimato é comum em artigos do gênero, portanto Simon Baker não é o verdadeiro nome do paciente em questão.

É fácil assumir que o tempo corre da mesma forma para todos, mas experiências como a de Baker mostram que o consciente é uma ilusão moldada pelo cérebro.

Através de estudos sobre o que de fato acontece durante tais eventos, pesquisadores estão revelando como e porquê  o cérebro faz esses truques temporais. Em algumas circunstâncias, dizem, todos podemos vivenciar essa “deformação” do tempo.

Há relatos do tempo acelerando – fenômeno conhecido como zeitraffer –, e experiências chamadas de akinetopsia, nas quais o movimento para por alguns instantes.

Por exemplo, uma mulher de 61 anos, no caminho de volta para casa, descreveu que o movimento das portas do trem e de alguns passageiros estava em câmera lenta e “quebrado”, como se em frames congeladas.

Um japonês de 58 anos, durante uma conversa, parecia estar no meio de um filme mal dublado: as vozes das pessoas, embora soassem normais, estavam fora de sincronia com seus lábios.

De acordo com Osview, podem haver mais casos não reportados. “É um fenômeno transitório, pode muitas vezes ser negligenciado”.

Tais casos quase sempre são acompanhados de problemas como epilepsia ou AVC.

Baker tinha 39 anos quando o fenômeno aconteceu, aparentemente causado por uma veia sanguínea enfraquecida que começou a sangrar enquanto ele carregava caixas pesadas. O resultado foram danos neurais em seu hemisfério direito. Com isso, sua percepção de tempo foi afetada.

Pesquisas mostram que uma região responsável por isso é a V5, do córtex visual. Localizada na parte de trás do crânio, a longa data essa região foi conhecida por detectar a movimentação dos objetos, mas talvez ela tenha uma função também no passar do tempo.

Um time de pesquisa do Hospital Universitário de Lausanne, na Suíça, fez uso de um campo magnético para apagar a atividade da V5 em alguns pacientes. O resultado: estes tiveram dificuldades em acompanhar o movimento de pontos em uma tela e estimar o tempo em que pontos azuis apareciam. 

Uma explicação para isso é que nosso sistema de percepção de movimento tem seu próprio cronômetro, que registra o quão rápidas as coisas se movem em nosso campo de visão – e quando esse sistema é interrompido por danos cerebrais, o mundo para.

No caso de Baker, tomar um banho quente deve ter acentuado o problema, já que a água em alta temperatura pode ter afastado o sangue do cérebro para as extremidades do corpo, perturbando ainda mais o processamento cerebral.

Ainda assim, isso é uma possibilidade. Nem todos os paciente com experiências de deformação temporal têm danos na V5, indicador de que outras regiões do cérebro podem desempenhar essa função.

Outra explicação vem da descoberta de que nosso cérebro registra suas percepções em “snapshots”, como as imagens de um rolo de filme. “O cérebro saudável reconstrói essa experiência e cola as imagens”, diz  Rufin VanRullen, do Centro de Pesquisa Cerebral e Cognitiva (CerCo, no idioma original), na França. “Mas se danos cerebrais destruírem essa cola, você pode ver apenas snapshots”.

Todos nós vivenciamos isso em algum momento. Por exemplo, os pneus de carros em movimento aparentam estar paradas. Isso acontece porque as snapshots não conseguem captar o movimento completo do pneu. Se ele realiza uma rotação completa a cada snapshot, vai aparecer na mesma posição a cada imagem, dando a ilusão de que estão imóveis.

Usuários de LSD relatam rastros na movimentação de objetos. VanRullen acredita que isso ocorre devido ao fato de o cérebro, de alguma forma, sobrepor as imagens ao invés de ‘atualizá-las’.

Uma pesquisa com pessoas que estiveram próximas da morte, em acidentes, mostra que 70% relataram o sentimento de terem vivenciado o evento em câmera lenta.

Valtteri Arstila, da Universidade de Turku, Finlândia, aponta que muitos indivíduos reportam também pensamento rápido. Um de seus pacientes, piloto que passou por um acidente na Guerra do Vietnã, disse que no momento do acidente, em cerca de três segundos, se lembrou de todos os comandos necessários para a recuperação da altitude de voo.

Revendo diversos casos similares e pesquisas, Arstila concluiu que um mecanismo automático, acionado por hormônios do estresse, pode acelerar o processamento interno do cérebro para ajudar em situações de vida ou morte. “Nossos pensamentos e iniciativa ficam mais rápidos – mas por estarmos processando tudo mais rápido, o mundo externo parece desacelerar.”

Ainda de acordo com o pesquisador, alguns atletas fazem uso desse mecanismo de forma treinada, como surfistas, que têm menos de 1 segundo para ajustar seu ângulo em certos momentos, ao praticar o esporte.

Esta deformação do tempo, embora interessante, não deve ser testada de forma drástica. Então, por favor, não batam suas cabeças na esperança de alterar sua percepção dele. Surfar, em contrapartida, pode ser uma boa alternativa.

 

Fonte: BBC News

Créditos de imagem: isachabe e Edward Hosford

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O Autor

Carla

Carla

Aspirante a programadora, sonhadora de olhos abertos e questionadora sem respostas. Adora jogos, internet e nomes científicos curiosos. Uma junção de bits estranhos.